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Extracto de uma Grande entrevista na Revista Ideal

por idealrevista, em 18.02.13

Em situação de desgraça

Choro sem que me vejam

Afirma Joaquim Chissano

 

Em Moçambique e não só, Joaquim Chissano é a figura que emerge quando se fala de pessoas que resolveram abraçar desinteressadamente a carreira diplomática. Depois de ter governado o país, num período conturbado, ei-lo pelos corredores diplomáticos do mundo fora, sempre na perspectiva de que a harmonia e a concórdia, mantenham a sua chama acesa acima de qualquer adversidade. É pois, esta inquestionável figura que nos abriu as portas da sua intimidade para falar das suas crenças, da sua infância, da carreira política e dos sonhos que ainda irriga.

 

O Presidente Joaquim Chissano é do signo balanço e costuma-se relacionar pessoas deste signo como sendo tolerantes.... e isso se encaixa bem á sua figura?

Por tradição as mães ao desamamentarem suas crianças entregam-nas a avó e eu também passei por isso. Aos seis anos de idade a minha avó me matriculou na escola Missionária Santa Ana da Munhuana, na cidade de Maputo. Só que nesse mesmo ano, meu pai saiu de Malehice, província de Gaza, terra natal, para passar a trabalhar na cidade de Xai-Xai, capital desta província, dai que solicitou o meu regresso para casa, para ficar com a mãe. Uma vez que o pai tinha requerido o estatuto de assimilado, precisamente para facilitar a educação dos filhos nas escolas oficiais, onde o ensino era mais elevado e célere, em Malehice não fui para escola missionária. Nas escolas missionárias também havia qualidade, mas o aluno levavava muito tempo para concluir um nível. Na escola oficial levava-se quatro anos para concluir o ensino primário e na missionária seis. Em Malehice fiquei pouco tempo porque passei logo para Xai-Xai.

Então podemos concluir que estas movimentações não permitiram que o Presidente Chissano pastasse gado, como tem sido o normal dos meninos do campo?

Nem por isso. Quando atingi a idade certa para pastagem fi-lo. Tínhamos férias do natal, da Páscoa que eram passadas na terra natal, fazendo coisas típicas do campo. Os meus pais não tinham gado bovino, mas tinham caprino e ovelhas e outros animais de pequena espécie como galinhas, patos, coelhos, cães e burros.

O Presidente Chissano foi o primeiro negro a matricular-se no Liceu Salazar. Isso não o assustou?

Não porque tinha uma boa preparação. Na quarta classe tive um bom professor que por consciência era um português. Ele era ao mesmo tempo amigo do meu pai, por isso convivíamos com a família dele e amigos. Mas contou o facto de ter estado numa escola oficial onde a maior parte de estudantes eram da cor branca. O outro factor que jogou positivamente é que as crianças pouco ligam essas diferenças.

Lembra-se de ter sofrido situações de racismo?

Guardo comigo vários episódios que sofri em várias ocasiões. 

Quando é que o Presidente Chissano despertou interesse pela política?

Para isso não existe datas, nem motivos. É uma coisa que se constrói. É um processo.

 

Não sou tão inteligente

como as pessoas pensam

Porquê afirma que não é tão inteligente como se imagina?

Depois de concluir o liceu fui aliciado para trabalhar na administração, para exercer a função de chefe do posto e mais tarde passaria para o cargo de administrador, bastando para isso ir frequentar o curso de administrador em Portugal, mas não aceitei porque o meu objectivo era continuar com os estudos. Preparei-me para exames de admissão para o curso superior, mas não foi fácil porque não sou tão inteligente como as pessoas pensam, faço muito esforço para conseguir alcançar algumas coisas.

O senhor Presidente foi obrigado a interromper a formação superior para junto dos camaradas fundar a Frelimo. Pretende um dia continuar com os estudos?

Esse é um desejo que não se apaga. O que pode me dificultar são as tarefas que me são dadas que são de muita responsabilidade. Logo que deixei de ser Chefe de Estado, abracei outras missões, diferentemente do ex-presidente da Namibia, Sam Nujoma, que logo que saiu da presidência ficou quietinho no seu país e conseguiu tempo para continuar com os estudos. Eu não diria que vou continuar a estudar porque mesmo que voltasse á Universidade não iria seguir medicina, curso que interrompi, mas outras especialidades. Quando era Chefe de Estado cheguei a me matricular numa Universidade, não para obter diploma, mas para aumentar conhecimentos para resolver algumas situações. Devido a falta de tempo, não consegui e a equipa que havia sido montado para me preparar desfez-se. Mas felizmente tenho sabido conduzir da melhor forma as tarefas que me são incumbidas, como fruto do que aprendi nesta grande universidade que é a vida.

O Presidente Chissano é caracterizado como um homem calmo e humilde. É assim desde criança ou trata-se de uma personalidade que foi se construindo ao longo do tempo?

Não posso afirmar que sou calmo, mas durante a Luta de Libertação Nacional, por várias vezes, o falecido Presidente Samora Machel me incumbia a tarefa de comunicar aos camaradas ou famílias quando houvesse situações de desgraça. Eu era um dos poucos que conseguia me conter nessas situações. Na minha família quando há desgraças choro depois de toda gente chorar, muitas das vezes sem que alguém me veja, porque nesse momento me vejo com a obrigação de amparar a todos.      

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publicado às 15:02




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